Como corrigir: Competência 3

Esta é a competência mais desafiadora para os estudantes e a mais subjetiva no critério de avaliação. Isso porque o que não está bem desenvolvido para um avaliador pode estar suficiente para outro. Portanto, sempre dê uma margem ao avaliar essa parte, e é muito difícil o texto não ter nenhuma falha argumentativa.

A redação que tangencia o tema fica com a nota máxima de 40 pontos não só na C2, mas na C3 também (e na C5).

Aqui duas coisas precisam ser analisadas: o PROJETO DE TEXTO e o DESENVOLVIMENTO das informações.

Projeto de texto #

O projeto de texto é percebido por nós essencialmente na introdução (e nos tópicos frasais algumas vezes). Nela, o aluno precisa deixar clara a tese dele, em que, muitas vezes, fica claro o projeto de texto (ou seja, os assuntos principais que ele irá tratar e a ordem que serão apresentados). É “um esquema geral da estrutura de um texto, no qual se estabelecem os principais pontos pelos quais deve passar a argumentação a ser desenvolvida.”

É considerada uma falha de projeto de texto quando um aluno apresenta coisas na introdução que não desenvolve, exemplo:

Você pode observar que a aluna aqui colocou enumerou algumas causas: (1) Motivos estruturais, (2) econômicos. (3) falta de interesse da população e (4) falta de interesse dos órgãos públicos. Logo, espera-se que ela desenvolva cada um desses tópicos.

Entretanto, no desenvolvimento, ela, no D1, colocou como a cultura é importante para o cidadão e no D2 ela abordou a ausência de proteção à cultura imaterial e material, mas não coloca o governo como culpado. Logo, não desenvolveu nenhum dos tópicos que colocou na tese, fazendo uma redação com projeto de texto totalmente falho.

Outro exemplo:

O aluno começa o texto de forma enfática colocando a culpa no capitalismo. Entretanto, desenvolveu apenas o que colocou na tese (insuficiência legislativa e corrupção) sem mencionar mais o capitalismo, deixando, assim, de desenvolver um argumento central (mesmo que ele não esteja na “tese”, o capitalismo recebeu um grande destaque aqui).

Esses erros de projeto de texto são considerados mais graves que os erros de desenvolvimento, entretanto, podem existir erros de projeto de texto que não influenciam muito, exemplo:

Aqui, a aluna desenvolveu tudo que colocou na  introdução, com exceção da parte do “senso crítico”. Entretanto, essa é uma falha pequena, já que essa ideia não é a principal do seu texto.

Desenvolvimento #

Esses erros são identificados de forma parecida com a questão do projeto de texto, mas em vez de serem focados na macroestrutura (o texto como um todo) eles ocorrem na microestrutura (dentro de cada parágrafo). Em suma, são coisas que o estudante se propõe a desenvolver no tópico frasal, mas não o faz, ou que apresenta na argumentação, porém de forma insuficiente.

Exemplos:

Aqui a aluna faz o primeiro período focando que o processo de democratização da cultura possui muitas brechas, porém, ela desenvolve apenas uma. Além disso, diz que não é presente um sistema de promoção e proteção dos patrimônios materiais e imateriais do país, entretanto, não desenvolve o que seria o ideal e quem seria o responsável por isso. Em seguida, ela adiciona outro tópico argumentando sobre o desinteresse dos brasileiros, mas não desenvolve isso. Por que isso existe? Qual o motivo para o desinteresse dos brasileiros? São algumas das perguntas que poderiam ter sido respondidas nesse parágrafo.

Outro exemplo de erros de desenvolvimento:

Aqui a estudante coloca no tópico frasal que a cultura é importante para estimular o senso de pertencimento, todavia, não desenvolve isso. Por quê? O que a cultura faz para que esse sentimento seja gerado? Qual a razão de mencionar que existem vários grupos, como a cultura serviria para criar esse sentimento de pertencimento em todos? Qual a relevância de mencionar que existem várias etnias no país? Todas essas são questões que a estudante não desenvolveu (vale lembrar que ela não precisa responder todas as questões de exemplo aqui, mas precisaria ter escolhido um caminho argumentativo).

Em seguida ela ainda coloca a melhoria das relações interpessoais, e, novamente, perguntas podem ser feitas como: Por quê? De que forma essas atividades produzem essa melhora?

IMPORTANTE: Muitos erros de desenvolvimento ocorrem por dois motivos:

  • O aluno NÃO SEGUE a estrutura do parágrafo argumentativo, ou seja, não entende as divisões do parágrafo e nem a função do tópico frasal, por exemplo. Logo, orientá-lo quanto a isso já o ajuda MUITO a organizar as ideias.
  • O estudante acaba tentando desenvolver mais de um tema principal por parágrafo ou apresenta diversos repertórios, o que não dá espaço suficiente para a apresentação adequada das ideias. Por isso, oriente-os a escolherem apenas UM tema central por parágrafo.

Além disso, ideias incoerentes, em que a pessoa argumenta algo diferente do que colocou no tópico frasal:

Aqui a estudante colocou que as redes sociais seriam as culpadas, entretanto, deu exemplo do impacto de uma série. Logo, faltou deixar relacionado às redes sociais, pode até existir essa relação, mas não ficou clara.

Autoria #

Com relação a questão da “autoria” solicitada no Enem, muitos fazem confusão sobre isso, colocando que a autoria seria trazer repertório de fora, problematizar uma situação ou não usar modelo pronto. Entretanto, AUTORIA para o Enem não tem relação com nenhuma dessas coisas.

“um texto que dá voz apenas aos textos motivadores pode ter autoria tanto quanto outro que traz conhecimentos de fora da proposta de redação. O importante para a Competência III é a autonomia do texto, que deve se sustentar sozinho, sem depender de conhecimento exterior por parte do leitor, ou mesmo dos textos motivadores, para que faça sentido. Trata-se daquele texto que se explica por si só.” Manual da C3, pg 13.

“O importante para a Competência III é a autonomia do texto, ou seja, um texto que é autossuficiente por não depender de conhecimento exterior por parte do leitor, ou mesmo dos textos motivadores, para que faça sentido.”

Logo, autoria é igual a AUTONOMIA do texto. Um texto que coloca “como explicado no texto I, o problema…” é um texto sem autoria, ou seja, sem autonomia. Isso, pois, para entender a redação do participante, é preciso consultar esse tal de “texto x” que ele está colocando.

O mesmo ocorre com conceitos que o estudante traz de fora e não explica, exemplo, comentar sobre “modernidade líquida” sem explicar o que seria isso (ou contrato social, já que eles usam bastante isso por causa dos modelos prontos). Por mais que o corretor provavelmente conheça o termo, não é responsabilidade do leitor fazer essa ligação, e sim do escritor ter deixado claro no texto. Portanto, conceitos e informações sem explicação também se encaixam como “texto sem autoria”.

Estratégias argumentativas #

É importante que o aluno conheça as estratégias argumentativas para que consiga argumentar de forma coerente, pois, muitas vezes, os alunos fazem confusão, especialmente no uso da ANALOGIA. Como assim? Colocam como análogo ao que não é ou usam como fundamentação uma analogia. Por exemplo: Usar uma obra ficcional para provar um ponto.

Aqui o estudante traz um filme como repertório, entretanto, coloca “a partir disso”, sem estabelecer a relação de analogia (uma obra ficcional não pode ser utilizada para provar o argumento dele, neste caso).

O mesmo ocorre aqui:

O contrário também acontece, os alunos acham interessante a expressão “de maneira análoga” e aplicam de maneira equivocada, como abaixo:

Em primeira análise, é válido salientar que a situação caótica da pandemia do novo Coronavírus está diretamente relacionada com o interesse político e econômico de cada país. Nesse âmbito, a ONU ordenou o travamento das fronteiras com o objetivo de isolar o enfermo no seu local de origem, não obtendo êxito significativo. De maneira análoga, tal conjuntura evidencia o atraso no investimento em pesquisas e na compra de materiais para a fabricação de vacinas. Por conseguinte, as cepas do corona encontram um ambiente favorável para se disseminarem.

É análogo por quê? Não tem nada comparativo ali, ela está embasando a ideia dela, portanto, confundindo a fundamentação com a analogia.

É importante lembrar que o aluno NÃO PRECISA trazer uma citação, um filósofo, um sociólogo etc em todos os parágrafos dele. Afinal, a FUNDAMENTAÇÃO é apenas uma das estratégias argumentativas.

Abaixo, brevemente, uma breve introdução sobre algumas das estratégias argumentativas e parágrafos nota 1000 que utilizaram cada uma delas:

Exemplificação #

É quando o aluno utiliza algum exemplo para provar algum ponto, pode ser uma situação, algo que saiu no jornal ou alguém. Como nesta nota 1000:

Vale ressaltar, ainda, a realização, por instituições não governamentais, de projetos inclusivos que contam com sessões de filmes em ambientes comunitários não contemplados pelo acesso à tv ou à internet. Exemplo disso foi a transmissão do filme “Cidade de Deus” na comunidade onde ocorreram as filmagens, a fim de oferecer aos próprios atores a possibilidade de assistirem ao longa.

Analogia #

Também é conhecida como comparação. É quando o aluno utiliza outra realidade (pode ser uma série, filme, a realidade de outro país ou de algum período histórico) e faz uma comparação com o presente, colocando as semelhanças.

Em primeira análise, vale destacar que durante o Renascimento Cultural — movimento artístico e intelectual ocorrido na transição da Idade Média para a Idade Moderna — a cultura era valorizada e usada como uma maneira de transmitir conhecimentos. Hodiernamente, entretanto, a situação é pouco observada na sociedade brasileira, uma vez que o acesso ao cinema, como forma de expandir a construção dos saberes, encontra-se pouco ampliado.

Fundamentação #

É a estratégia mais utilizada, provavelmente por ser a mais difundida, mas como já dito, não é a única e não deve ser exigida. O estudante fundamenta a ideia dele em um pensamento de alguém, uma citação ou algum dado estatístico.

Em uma primeira perspectiva, a desigualdade histórica brasileira apresenta íntima relação com a existência desse cenário. Segundo o filósofo Jean-Jacques Rousseau, em sua obra “Contrato Social”, a desigualdade social surgiu com base na noção da propriedade privada e na disputa por poder e riquezas entre os indivíduos. Essa ideia encontra-se materializada no processo de formação histórica do Brasil, o qual foi marcado pela disputa por riquezas entre as regiões e grupos sociais, instaurando um cenário de desigualdade que dificulta o acesso ao cinema pelos grupos menos favorecidos financeiramente.

Causa e Efeito #

Essa também é uma estratégia argumentativa válida, destacada, inclusive, na própria cartilha de redação do participante. Basicamente, consiste em colocar as consequências de algo.

Outrossim, é imperativo pontuar que a negligência de empresas do setor – como produtoras, distribuidoras de filmes e cinemas – também colabora para a dificuldade em democratizar o acesso ao cinema no Brasil. Isso decorre, principalmente, da postura capitalista de grande parte do empresariado desse segmento, que prioriza os ganhos financeiros em detrimento do impacto cultural que o cinema pode exercer sobre uma comunidade. Nesse sentido, há, de fato, uma visão elitista advinda dos donos de salas de exibição, que muitas vezes precificam ingressos com valores acima do que classes populares podem pagar. Consequentemente, a população de baixa renda fica impedida de frequentar esses espaços.

Concessão #

Quando é apresentado um argumento que, tecnicamente, seria contrário à tese, entretanto, ele é “rebatido” pelo participante:

Em primeira análise, constatam-se as amplas taxas de comercialização de filmes pirateados, sobretudo, nos centros urbanos. Essa problemática atenta, pois, para o descumprimento de um dos artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o qual trata dos direitos autorais de produções artísticas, gravemente feridos pela comercialização de filmes reproduzidos ilegalmente. Entretanto, tal cenário nada mais é do que um reflexo do acesso restrito a tais conteúdos, em razão dos altos preços cobrados pelas sessões de cinema, induzindo, assim, os indivíduos menos favorecidos a optarem pela pirataria – menos onerosa e, portanto, mais adequada ao seu diminuto poder de compra.

Dados #

Ao analisar as redações nota 1000 de 2020, chegamos aos seguintes resultados:

Ou seja, a fundamentação corresponde a preferência de 65% dos estudantes (foram catalogadas as estratégias em ambos os parágrafos de desenvolvimento), possivelmente por, muitas vezes, ser a única estratégia ensinada (amplamente difundida em modelos prontos).

Abaixo um fluxograma para ajudá-los na correção desta competência:

Fluxograma criado por Thais Benedetti com GoConqr

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